POLÍTICA:Congresso reage à operação da PF entre o medo e a perplexidadeFerrari apreendida pela PF na Casa da Dinda
| Collor no Senado, após discursar sobre a ida de agentes da PF em seus dois imóveis: busca e apreensão Foto: André Coelho. |
Os carros de luxo apreendidos na Casa da Dinda, em Brasília (DF), pela Polícia Federal são apenas uma parte da coleção particular do senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), alvo de inquérito da Operação Lava Jato.
Além da Ferrari vermelha, do Porsche preto e do Lamborghini prata levados nesta terça-feira, ele possui outros catorze automóveis: Ferrari Scaglietti preta, BMW760iA, Cadillac SRX, Land Rover, Toyota Land Cruiser, Mercedes Benz E230, Hyundai Vera Cruz, Honda Accord, duas Hilux, dois Kia Carnival, Citröen C6, e um clima entre os POLÍTICOS investigados pelo Supremo Tribunal Federal é de medo e apreensão.
BRASÍLIA — Os senadores que moram no bloco G da quadra 309 em Brasília foram acordados pelo ronco de um helicóptero sobrevoando o prédio. Os motoristas e moradores se alvoroçaram com a chegada da Polícia Federal cobrindo todos os flancos do bloco.
Logo descobriram que algo impensável acontecia: senadores da República eram alvo de mandados de busca e apreensão pelo envolvimento na Operação Lava-jato. Quando a notícia se espalhou, o clima de receio se alastrou pelo Congresso.
— Eu estava saindo para o pilates e dei de cara com uma tropa de ninjas indo para a casa do Collor. Um baixo-astral! — contou o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).
Collor usa o apartamento funcional no prédio, mas não estava ali. Dormia com a mulher na Casa da Dinda, mansão no Lago Norte. Ainda estava de pijama quando a PF chegou. Collor ficou indignado. Mais tarde, relatou a colegas que os agentes levaram até cópia de seu testamento.
Collor disse que mostrou notas fiscais dos carros e do Imposto de Renda, mas que o policial fez um telefonema e recebeu a ordem de “levar tudo”. Um agente filmava toda a operação na Casa da Dinda. No apartamento do Senado, como Collor não estava, a porta foi aberta com a ajuda de um chaveiro.
Apesar de o assunto ser o principal tema do dia, nenhum partido saiu em defesa de Collor ou fez discurso contra ação policial.
| Ferrari apreendida pela PF na Casa da Dinda |
Na Câmara, onde, ao todo, 22 deputados respondem a inquéritos, o assunto estava nas rodas de conversa. Não houve discursos na tribuna, mas o clima entre os envolvidos no escândalo era de receio e perplexidade. Nas conversas com O GLOBO, alguns desses deputados, na condição de anonimato, criticaram s decisões dos ministros do STF que autorizaram as buscas. Os que concordaram em dar alguma declaração, a fizeram com cautela. O primeiro vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), investigado no STF, foi econômico:
— Espero que a PF saiba o que está fazendo. Está tudo em segredo de Justiça. Não quero falar mais — disse Maranhão, que foi apontado pelo doleiro Alberto Youssef como beneficiário do esquema na Petrobras.
Também respondendo a inquérito, Nelson Meurer (PP-PR) acompanhava no computador à sua frente o noticiário sobre o assunto. Foi outro que não quis se estender no assunto:
— Não tenho nada a dizer.
| Lamborghini de Collor apreendida pela PF na Casa da Dinda |
Jerônimo Goergen (PP-RS) comentou sobre o assunto com reservas. Ele aparece na lista de deputados do PP que, segundo Youssef, receberam entre R$ 30 mil a R$ 150 mil:
— Já fiz minha parte. Fui o primeiro a entregar minha defesa.
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também alvo de investigação do STF, não quis comentar a ação da PF. E desdenhou ao ser perguntado sobre o clima de apreensão:
— (Clima?) Não sei, não senti. Não vi ninguém falar de clima. Está sol.
Um parlamentar investigado, que pediu anonimato, comparou sua situação com a de Collor.
— Olha isso! O Collor tá envolvido, esses carrões! Quem sou eu perto disso tudo? Só um deputadozinho.
— Movimentado o Planalto Central hoje né? Está um pandemônio — disse o senador Aécio Neves (PSDB-MG)
Além de ter recolhido um Porsche, um Lamborghini e uma Ferrari, a Polícia Federal encontrou R$ 3.670.350 reais em dinheiro ao cumprir um mandado de busca e apreensão em uma empresa em São Paulo.
Nesta terça-feira, foram cumpridos 53 mandados expedidos por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), após pedido da PF para que fossem recolhidos documentos envolvendo parlamentares – e “evitar que provas importantes fossem destruídas”.
Atualmente, respondem a inquérito no Supremo 22 deputados federais, 13 senadores e 12 ex-deputados. Mas com novas delações premiadas, como a do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, deve aumentar ainda mais a lista de políticos suspeitos de ter embolsado propina do petrolão.
Balanço parcial da PF aponta que ao todo foram apreendidos oito carros, duas obras de arte, joias, relógios, além de R$ 4.028.475 reais, $ 45.644 dólares e $ 24.550 euros.
Comentários